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Somos sacrários vivos!

       “Somos sacrários vivos!”, disse o padre, durante a homilia de hoje. Corpus Christi é uma data que sempre me comove profundamente. Se alguém quiser experimentar sentir a ação do Espírito Santo, vá a uma celebração como essa. Ainda dá tempo.      Eu costumo me concentrar em qualquer missa e principalmente na celebração da eucaristia, mas, apenas algumas vezes, muito especiais, tive a real sensação de ser tomada pelo Espírito Santo de Deus.  Certamente, a primeira de minha longa jornada católica foi em companhia de minha querida mãe Yolanda, ainda na Catedral de Campinas, igreja a qual ela me levava desde pequena.      Senti também o coração transbordar de emoção em uma rápida missa, olhem só, depois do trabalho e antes de ir para a aula da faculdade, em uma capela lá na Puc Campinas. Ia quase todos os dias, mesmo que chegasse alguns minutos atrasada à sala de aula.      Com o passar do tempo, a gente começa...

Direitos Autorais e Domínio Público: quando a vontade do autor já não conta mais

     Quando, em janeiro deste ano, toda a obra de Graciliano Ramos caiu em domínio público, imediatamente foi anunciada a publicação de um livro inédito seu, “Os filhos da Coruja”. Trata-se de um poema, manuscrito pelo autor, com pseudônimo de J. Calisto. Pela vontade dele e pela disposição de seus herdeiros, isso jamais aconteceria, pois, o autor de Vidas Secas tinha deixado instruções explícitas para que escritos nessas condições não fossem editados após sua morte.      Depois que um autor morre, os direitos autorais sobre suas obras passam para seus herdeiros num prazo de 70 anos. Após esse período, de acordo com a legislação brasileira, todo seu acervo cai em “Domínio Público”. Isso significa que a partir daí qualquer pessoa ou empresa pode se utilizar de parte de suas criações ou da totalidade delas para fazer o que quiser, republicar, transformar a escrita para teatro ou audiovisual, tomar como base ou fonte de inspiração para novas criações etc. Há...

IA... até onde pode ir na Literatura e nas demais Artes?

         Embora a IA seja uma tecnologia relativamente recente em termos de aprimoramento e utilização prática em maior escala, essa pauta já vem sendo discutida há muito tempo, pensando-se na tecnologia como algo que provoca desemprego em vários ramos, inclusive nas artes.  Imaginemos o que aconteceu com os escribas e copistas da idade média, quando a quantidade de volumes de um livro publicado dependia da mão humana para ser multiplicada. Após a invenção da imprensa, todos ficaram desempregados.      Tal qual o cinema, que usa uma câmera e produz 24 fotogramas por segundo para, através da sua justaposição, provocar a ilusão do movimento, da mesma forma acontece com as animações. Até um passado bem recente esses desenhos eram feitos a mão. Imaginemos quantos desenhistas eram necessários para fazer essas tantas imagens e quantos deles devem ter sido dispensados a partir da chegada do computador.      Portanto, as atividades...

Revisionismos: O valor de cada tempo

  Partindo-se do princípio de que revisionismo é o ato de reanalisar algo do passado, de forma a interpretá-lo com princípios atuais, alguns têm a opinião de que, quando falamos de obra literária, de obra de arte, esse ato não faria nenhum sentindo. A obra de arte é e sempre deverá ser o que era quando foi criada. Não é para preservar a sua autenticidade que se procura proteger um quadro, uma escultura, da ação do tempo, mantendo-os em locais em que sofram o mínimo possível de ataque ou interferência externa? Ou então, quando a obra sofre algum dano ou desgaste, faz-se um esforço para restaurá-la, para que fique nas mesmas condições e aparência originais? Tudo para se preservar a obra. Talvez o único que possa “revisá-la” seja seu autor, apesar de que, após muito tempo ter se passado desde a criação, represente lançar um novo olhar para ela e uma consequente transformação. Nesse caso, talvez ela esteja sendo destruída e servindo como matéria-prima para um novo produto. Não há...

Modismos Sociais e Estéticos na Literatura

       A moda é um conjunto de opiniões, gostos, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos. O modismo tem a ver com aceitação, com a necessidade de ser aceito.  Os primeiros modismos que podemos citar em processos de escrita são aqueles configurados pelo uso de palavras ou expressões da “moda”. Nós vivemos em uma cultura viva, em que o idioma também é vivo, em que novas palavras são constantemente incorporadas ao vocabulário ou usadas em sentido diferente do original. A questão é que alguns termos acabam se tornando esvaziados ou se tornam clichês, de uso forçado. Nós escritores precisamos ficar atentos a eles, assimilar o que achamos importante ser assimilado, mas nem sempre nos render a imposições da linguagem. Palavras como “resiliência”, “ressignificar”, por exemplo, tornaram-se de uso frequente. O mesmo acontece com termos como “não é sobre... é sobre...”, “ato de resistência” etc.    Se a pessoa não usa esses termos, parece não ser “in...

VANGUARDAS: A ESTÉTICA DA RUPTURA

  Quando o termo vanguarda (do francês, avant-gard), o que marcha na frente, portanto, de origem militar, foi associado às artes, no início do século XX, foi para identificar aqueles que “marchavam” na frente, que iam abrindo caminhos, a partir de uma ruptura de conceitos, dogmas, formas, linguagens etc. Entretanto, se formos analisar em termos de ruptura, podemos dizer que uma das mais importantes é de bem antes, a partir do Renascimento, em que há um rompimento com o teocentrismo e a adoção do antropocentrismo, passando o homem a ser o centro do universo. Na pintura e na escultura começa-se a se preocupar com a escala, com a profundidade, com os detalhes, uma busca pela perfeição. Depois com o Impressionismo já se abandona a necessidade de um quadro imitar a realidade. Passa-se a valorizar mais o Sol, que revela as cores. Outro período importante de ruptura veio pelo Romantismo, não aquele ao qual nos remete a palavra, entre duas pessoas, mas aquele diretamente relacionado a ...

Verossimilhança: a Invenção de Realidades

       Como declara Fernando Pessoa em seu poema Autopsicografia, o poeta é um fingidor. Na verdade, não apenas o poeta, bem como todo artista que cria uma obra fictícia, seja ela escrita, encenada, declamada, pintada, esculpida etc. Mas exatamente por ser fingimento, ela precisa parecer verdadeira. Precisa ser coerente dentro do sistema proposto pelo autor.    Uma obra é a invenção de um mundo de quatro paredes. Se uma dessas paredes é “quebrada”, ou seja, se algo no cenário, no diálogo, na letra ..., não é verossímil perante o que foi criado, se um acontecimento não parece possível de acordo com a sequência estabelecida, isso pode interferir, negativamente, na integridade da obra.    Como se sente um telespectador atento que assiste a um filme cuja história se passa no século XVIII e se depara com um tênis All Star (item de vestuário que só foi inventado em 1971) no armário da rainha? Se antes acreditava no que via, sente-se imediatamente de...