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Escrita para o cinema: a arte do roteiro

 

    Em toda a história do cinema, desde a invenção dos irmãos Lumière, tivemos exibições de grande sucesso, de público ou de crítica. Enquanto algumas partiram apenas de uma ideia, que depois se transformou em roteiro, muitas outras foram adaptadas das páginas de um livro ou dos palcos do teatro para, depois de trabalhadas em uma verdadeira indústria, serem projetadas na telona.

    Na sexta-feira, dia 29 de maio de 2026, na semana em que comemoramos sete anos de existência, aconteceu o 35º Encontro de Escritores e Leitores com o tema “Escrita para o cinema: a arte do roteiro”, nas dependências do CME Adamastor. Nem o frio e a proximidade do final de semana impediram que um pequeno, mas significativo grupo discutisse o tema de forma produtiva e abrangente.

    O objetivo era falar sobre os desafios e processos de adaptação de obras literárias e teatrais para o cinema, explorando diferenças entre os meios artísticos, citando exemplos de adaptações bem-sucedidas e outras nem tanto.

    As narrativas literária e cinematográfica têm características distintas. Enquanto a primeira usa como matéria-prima apenas as palavras, a segunda, além delas, envolve uma gama de elementos audiovisuais, de enquadramento, cenário, de som, edição, atuação, enfim, uma infinidade deles, que só um manual da sétima arte conseguiria listar com precisão.

    Além disso, o livro deixa o caminho um pouco mais aberto para a interpretação de quem lê, enquanto, num filme, o espectador recebe a leitura e a interpretação que o diretor e o roteirista fizeram de determinada obra, direcionando, de certa maneira, a interpretação do público que, mesmo assim, é claro, poderá compreendê-lo de diversas formas. Interesses comerciais também exercem muito mais influência na produção cinematográfica, cujo resultado pode ou não se aproximar de sua origem.

    O sucesso de uma adaptação depende de se respeitar a essência da obra e adaptá-la criativamente ao novo formato, mantendo o conflito, o turning point (ponto de virada), as oscilações de ritmo em que se conta a história, com seus altos e baixos, cativando o interesse do espectador, permitindo seu pleno acompanhamento e degustação até o seu desfecho. Importante ressaltar que um roteiro original também pede esse mesmo respeito às curvas ascendentes e descendentes de uma história, conflito, turning point etc.

    Pelo alcance do cinema, como linguagem muito consumida, especialmente entre os mais jovens, uma adaptação bem-sucedida pode muito bem captar novos leitores. O desejo de comparar os formatos é um grande incentivo para isso.

    Grandes clássicos do cinema foram lembrados, como Amadeus, que se originou de uma peça teatral, e Hair, que é uma adaptação cinematográfica do famoso musical de mesmo nome criado para a Broadway. Além disso, há a versão cinematográfica do romance Um estranho no ninho, que conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Esses três filmes não foram citados ao acaso. Eles têm em comum a direção de Milos Forman.

    Um grande criador de roteiros originais foi Charlie Chaplin. Obras como O Garoto e O Grande Ditador são excelentes provas de seu gênio criativo.

    Uma trama metaficcional, que brinca com os limites entre a realidade e a fantasia, A Rosa Púrpura do Cairo, rendeu a Woody Allen o Globo de Ouro e indicações ao Oscar, BAFTA e ao Sindicato dos Roteiristas na categoria de Melhor Roteiro Original. Outra indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original veio para o cineasta com o filme Match Point, enquanto o próprio Oscar na mesma categoria foi ganho por Allen por Meia-Noite em Paris.

    O romance O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, teve várias adaptações cujos resultados a se destacar são: o clássico de 1974, dirigido por Jack Clayton e com roteiro de Francis Ford Coppola, estrelado por Robert Redford e Mia Farrow; e a adaptação mais conhecida do público de hoje (2014), dirigida por Baz Luhrmann e estrelada por Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan. Enquanto a versão anterior prioriza o drama contido e a fidelidade histórica e estética da Era do Jazz, a versão moderna aposta no exagero visual e na música eletrônica.

    O filme Howl (conhecido como Uivo em português) é um drama biográfico lançado em 2010. Mais do que uma adaptação linear, a obra é um híbrido que homenageia e desconstrói o famoso poema homônimo de Allen Ginsberg, publicado em 1956.

    A Lenda de Beowulf (2007) é a adaptação mais conhecida do poema épico heroico em inglês antigo, Beowulf, de autor anônimo, datado entre os séculos VIII e XI, que utiliza a técnica de captura de movimentos (motion capture). O roteiro foi escrito por Neil Gaiman e Roger Avary, trazendo uma versão mais sombria e adulta da lenda, na qual o herói lida com as consequências de um pacto sombrio.

    O filme Trumbo: Lista Negra (2015) foi adaptado do livro biográfico Dalton Trumbo (1977), escrito por Bruce Alexander Cook. A cinebiografia narra a história real do roteirista Dalton Trumbo, que foi perseguido e banido da indústria cinematográfica norte-americana durante o Macarthismo na década de 1940.

    O clássico O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë, já ganhou mais de 10 adaptações para o cinema e TV, e sua versão mais recente (2026) tem uma releitura bastante ousada, tendo gerado discussões intensas.

    Para completar a lista de roteiros originais mencionados, destacamos Avatar, Titanic (inspirado em um fato real), E.T. - O Extraterrestre, Pulp Fiction - Tempo de Violência, a franquia Star Wars, Gremlins e Matrix.

    Como adaptações de sucesso, temos O poderoso chefão, Um sonho de liberdade, O senhor dos anéis, 2001: Uma Odisseia no Espaço, A Lista de Schindler, ...E o Vento Levou, O Silêncio dos Inocentes, Tubarão, Psicose, Clube da Luta, Jurassic Park: Parque dos Dinossauros, O Iluminado, a franquia Harry Potter e Laranja Mecânica.

    Um caso mais recente foi a adaptação para o streaming de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. O autor não queria ver suas obras filmadas, pois achava que sua literatura era essencialmente para ser lida. Tinha tido uma experiência, a seu ver, desastrosa com O amor nos tempos do cólera, cujo filme não teve sua aprovação nem alcançou grande sucesso no cinema. Por isso, foi após a sua morte que seus filhos resolveram que era hora de adaptar sua maior obra, transformando-a em série, com resultado excepcional, ao menos pela repercussão da primeira parte, que abrange os 50 anos iniciais da saga. A continuação e conclusão estão confirmadas para estrear em agosto de 2026.

    Que bons livros e filmes continuem a ser produzidos e consumidos, com adaptação ou não, mas com técnica e precisão!

 

Dica: Todos os filmes citados são excelentes sugestões para quem gosta de cinema.

Sugestão para leitura

Story: Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro - Robert McKee

 

#literatura #teatro #cinema #artes #roteiro


Comentários

  1. Quantos filmes bacanas e estimulantes foram mencionados neste Encontro. Parabéns pelo repertório afinado!

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    1. Obrigada, Andy. Dá vontade de assistir a todos novamente, não é?

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