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Sucesso e relevância no campo das artes

 

O que significa sucesso no Campo das Artes? Um livro que ganha um prêmio literário, um Best Seller, um filme campeão de bilheteria, uma indicação para o Oscar, ser premiado com o Oscar, uma peça bem avaliada pela crítica? No campo da música, uma canção que toca mais vezes no rádio, um cantor que se apresenta com frequência em programas de TV ou tem recordes de bilheteria em seus shows? Aquele que é convidado para grandes festivais, como o Rock in Rio, por exemplo? Ser aclamado, conhecido, ter sua obra lida, escutada, assistida, homenageada é o sonho de todo artista.

Já a relevância, tem muito mais relação com o conteúdo propriamente dito, com a sua importância para a sociedade, a sua representação de um povo, de uma época, de um gênero específico.

Há artistas que não conseguem projeção em suas carreiras, mas que, pela qualidade de suas obras, acabam influenciando outros, que acabam tendo significativos avanços mercadológicos, influenciados pelos primeiros. Muitas vezes, a relevância de um artista é reconhecida entre seus pares e não pela maioria das pessoas. Grandes talentos passam despercebidos diante do público. Ao mesmo tempo, outros, não tão talentosos, alcançam o sucesso por uma conjunção de fatores que não estiveram presentes na vida do primeiro.

Como exemplo, podemos citar, na música, Woody Guthrie, da folk music, nem tão conhecido, mas fonte declarada de inspiração de Bob Dylan, estando clara a prova de sua relevância. Pouquíssimo lido, sequer conhecido, talvez digno de ser considerado o único surrealista brasileiro, o escritor Campos de Carvalho foi admirado e apadrinhado por Jorge Amado e tem, portando, sua relevância, devendo ser referência para qualquer escritor que queira produzir literatura com humor cáustico, corrosivo, inteligente, irreverente e nonsense.

O sucesso tem muito mais a ver com certo investimento no momento em que a obra é lançada. Ele vem acompanhado de um conjunto de fatores que vão muito além do talento, da qualidade, da boa escrita, da criatividade, da forma. Essa notoriedade passa pelo trabalho de marketing, pelo dinheiro gasto com a divulgação, com o interesse de quem tem poderes para premiar, ou para pautar sua exposição nos meios de comunicação. Carisma, senso de oportunidade e um bocado de sorte completam essa lista.

Vamos ver alguns exemplos em que o sucesso e relevância não estão necessariamente na mesma casa. Beyoncé tem uma belíssima voz, é a maior ganhadora de estatuetas do Grammy: 35 até o momento. Será sua obra tão relevante, imortal, inesquecível? Bob Dylan tem 11 Grammys contra os 35 da Beyoncé. Billie Holiday só teve quatro Grammys, todos reconhecimentos póstumos. E se pensarmos qual a importância da Billie Holiday para o jazz, para o blues, para a música, para a arte negra americana, ela é muitíssimo maior que a Beyoncé.

Elis Regina nunca recebeu nenhuma indicação ao Grammy. Apenas, postumamente, o disco “Elis & Tom” entrou para o rol da fama do Grammy Latino.

Anita é uma das cantoras brasileiras que mais faz sucesso no mundo, mas sua arte não representa o Brasil propriamente, como Elis Regina ou Tom Jobim representaram. Não é possível dizermos que ela tem o mesmo peso, a mesma relevância artística desses dois excepcionais nomes da música brasileira. Ela pode entrar para a história como uma grande vendedora de música, mas não como uma grande musicista, uma grande compositora ou qualquer outra coisa que a pudesse colocar no mesmo patamar de um criador como Tom Jobim ou de uma intérprete como Elis Regina.

Concluímos que, sucesso, êxito comercial, é uma coisa, mas, relevância pode estar junto do sucesso ou não.

Os Monkees eram chamados pela crítica, ironicamente, de “The Pre-Fab Four” (Os quatro pré-fabricados). No ano de 1967, eles venderam mais discos que os Beatles e os Rolling Stones somados. Foram um fenômeno mundial. Ainda hoje, há canções que entram em alguns filmes, como em Shrek, por exemplo (canção “I'm a Believer"), que as pessoas conhecem, mas que não sabem que os Monkees foram os primeiros a gravá-las. Eram bons compositores, bons cantores, é uma banda querida nos EUA, muito lembrada até hoje, mas, mesmo com todo o sucesso, inclusive de vendas, estão longe de terem causado no mundo um impacto cultural, comportamental, estético, artístico como os Beatles tiveram. Uma coisa é o sucesso que eles conseguiram. Até um prêmio da televisão, o Emmy, eles ganharam com o seriado. Na verdade, o seriado era a catapulta, era o meio pelo qual as canções ficavam conhecidas e vendiam muito. Fizeram um belo longa metragem também, psicodélico, ácido, com a presença do Frank Zappa, Jack Nicholson, um filme chamado “Head”, conhecido no Brasil como “Os Monkees Estão Soltos”.  Em resumo, foram artistas talentosos, muito carismáticos, mas, possuem a relevância dos Rolling Stones? Dos Beatles? De forma alguma! Embora tendo feito sucesso, não são necessariamente relevantes para a história da arte, do rock.

Falando de literatura, temos Paulo Coelho, possivelmente o escritor brasileiro que mais vende no mundo. Talvez a figura mais conhecida da nossa literatura lá fora. Mas será que ele representa de fato o que é a literatura brasileira? Entrou, em 2002, para a Academia Brasileira de Letras. Carlos Drummond de Andrade nunca entrou. Chico Buarque, grande nome da música e, atualmente, da literatura de igual forma, recebeu o Jabuti com vários livros e seu mais recente, “Bambino a Roma”, foi finalista do Prêmio Jabuti 2025, como Melhor Romance. Nenhum dos dois, nem Chico, nem Drummond se candidataram à ABL.

Jorge Amado sofreu muito com a avaliação da crítica. Tendo toda uma linguagem de massa, tinha uma escrita que não agradava os elitistas e era considerado não relevante para a literatura brasileira. Mas, na verdade, era mais do que relevante. Representou muito do povo brasileiro, das suas necessidades e, partindo de uma caracterização regional, ele deu um caráter universal aos seus personagens, tendo sabido transitar entre o entretenimento e a arte. Suas obras viraram novelas, filmes, mas nunca deixaram de ser relevantes por conta desse sucesso comercial.

Entre as mulheres escritoras, Zíbia Gasparetto vendeu mais de 18 milhões de livros. É um fenômeno de vendas incontestável. Lya Luft, com seu livro “Perdas e Ganhos”, vendeu mais de 600 mil exemplares. Clarice Lispector, uma escritora magnífica, revolucionária na estética, na arte, na profundidade da sua escrita, uma das maiores escritoras brasileiras, nunca vendeu tanto livro como as anteriormente citadas. Adélia Prado, uma excelente poeta, herdeira de Drummond, que inclusive ainda vive, também está longe do sucesso comercial de Zíbia e Lya. Todas foram e são escritoras reconhecidas, mas Zíbia Gasparetto e Lya Luft, que tiveram maior sucesso em vendas, são as mais relevantes?

Dentre os pintores brasileiros, o que mais faz sucesso no exterior, o que mais vende é Romero Britto. Tem ateliês espalhados pelo mundo, é o pintor predileto das celebridades americanas. Já vendeu para Madonna, Arnold Schwarzenegger e outras tantas celebridades... Por outro lado, Almeida Junior, autor do famoso quadro “Caipira picando fumo”, embora reconhecido como um grande pintor, jamais fez fortuna com a venda de quadros. Mas suas criações, antes do Modernismo, já tinham cara de Brasil, assim como Lima Barreto, com seu romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, já dava contornos a uma identidade que podia ser reconhecida como muito brasileira. Na obra de Almeida Junior, há traços da escola realista de pintura, sem que seja considerada, por isso, uma pintura europeia, mas, sim, reveladora de uma imagem muito brasileira. Se formos compará-lo com Romero em termos de relevância, de representação de uma estética e um tipo brasileiro, o peso de Almeida Junior é indiscutivelmente maior. Romero Britto pode ser lembrado pelo valor de sua figura no mercado das artes, mas não pela sua arte.

Abordando, brevemente, o cinema, no ano de 1977, Sylvester Stallone tornou-se o terceiro ator a ser indicado para o Oscar em duas categorias ao mesmo tempo: melhor ator e melhor roteiro. Isso só tinha acontecido com Charles Chaplin e Orson Welles. A relevância desses dois últimos é indiscutível. Porém, artisticamente falando, não se pode atribuir a mesma relevância a Stallone. Seu grande destaque está no ponto de vista comercial, um ator que fez história nas bilheterias. Mas em termos de conteúdo, de arte dramática, a relevância de Chaplin e Welles é inatingível para um ator de filmes de ação como Stallone.

Outro detalhe que colabora com a tese comercial está no fato de, na mesma data da indicação para o Oscar que mencionamos, o outro ator da lista era Al Pacino. Em sua autobiografia, “Sonny Boy”, ele conta que, embora já tivesse sido indicado para o Oscar nove vezes, a única em que ganhou foi com o filme “Perfume de Mulher”, quando, pela primeira vez, havia trabalhado para conquistar o prêmio. Com a ajuda de uma assessora, foi a programas de televisão, deu entrevistas e só então conseguiu ser premiado. Isso dá uma dimensão do que é sucesso e o que é relevância. Sem o Oscar, Al Pacino seria menos ator do que é? Seria menos relevante do que é? Não seria. O prêmio apenas deu uma chancela a mais à sua obra.

Ainda no campo do cinema, tivemos o recente sucesso de “Ainda estou aqui”, recebendo o Oscar de melhor filme estrangeiro. É, sem dúvida, um ótimo filme, mas em termos de complexidade, de linguagem de cinema, quando comparado aos seus concorrentes, não os supera nesses quesitos. Sua vitória se deu muito mais pelo momento histórico em que vivemos, pelo momento político inclusive, por ser portador de uma mensagem de busca da verdade, mensagem mais do que necessária nesses tempos. Além disso, o sucesso também foi fruto de um primoroso trabalho de marketing, investimento real em propaganda, com diretor e atores sendo entrevistados em programas de TV e aparecendo nos mais diversos meios de comunicação, durante toda a campanha.

Ao longo do século XX e até hoje, a arte foi sendo tratada muito mais como entretenimento, como diversão, como negócio, show business, deixando-se, muitas vezes, de se considerar o que ela tem de mais nobre, de mais verdadeiro, que é o poder de tocar as mentes, as almas, os corações. Ela tem de ter uma proposta estética, um trabalho bem feito, para que seja relevante como arte e não somente como produto. A relevância está presente quando a arte representa um momento de renovação, quando ela propõe conteúdos de maneira estética, de maneira a modificar cenários, mentes, vidas.

A frase "Stop making stupid people famous" tem se popularizado nas redes sociais como uma crítica à cultura das celebridades, às figuras que fazem sucesso como artistas praticamente sem conteúdo relevante, sem a arte em sua mais pura acepção. Zeca Baleiro trata desse assunto no livro “A rede idiota”. Lembra muito o conceito de Umberto Eco: como se costuma dar voz à maioria, mas e se a maioria é medíocre?

Em uma sociedade que nos dá uma vida cada vez mais atribulada, o entretenimento tem sua importância e valor, uma vez que nos ajuda a aliviar um pouco as tensões. É preciso, de vez em quando, “desligar o cérebro” e acompanhar uma série no streaming, por exemplo, sem a pretensão de que ela nos faça pensar, nos toque profundamente como arte. Mas também há momentos em que necessitamos de apreciar algo mais elaborado, que nos provoque os sentidos, que, de certa forma, provoque as nossas convicções. Um filme, por exemplo, que nos crie algum incômodo, que nos leve a uma reflexão.

Para finalizar, a arte é uma atividade que dialoga muito com a vida social. Ainda que feita, muitas vezes, individualmente, ela tem uma relação com a coletividade; parte do eu, mas sempre vai em direção ao outro. O sucesso acontece quando multidões de “outros” voltam a atenção e consomem determinada obra de arte. Que haja entre nós, cada vez mais, arte de qualidade, relevante, que possa e seja consumida e admirada por sua importância, pelos contornos de seu relevo!

 

Dicas:

 

Filmes:

Para Roma, com amor (Woody Allen)

Yesterday: A Trilha do Sucesso

Ficção americana

 

Livro:

“Sonny Boy” - Al Pacino

Crítica literária no século XX - Jean-Yves Tadié


Obs.: Texto criado com base no que foi discutido du
rante o 33º Encontro de Escritores e Leitores, dia 28/11/2025, pelo Google Meet.


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