“Uma obra de gênio é 5% de inspiração e 95% de
transpiração”.
A frase é comumente atribuída a diferentes
personalidades: Thomas Edison, Paul Valéry, Albert Einstein, Pablo Picasso...
Sempre que é citada, as porcentagens também variam, podendo a participação da
inspiração chegar a apenas 2%.
Mas qual seria mesmo a relação entre inspiração e
transpiração (trabalho constante) no processo criativo? Apenas a inspiração
poderia tornar possível a criação de uma grande obra? Ou bastaria trabalhar
muito e estudar para chegar a esse mesmo fim?
Esse foi o ponto de partida para as discussões no 36.º
Encontro de Escritores e Leitores, que aconteceu no dia 31/07/2026 — como
sempre, numa sexta-feira à noite —, nas dependências do CME Adamastor.
Pode-se dizer que a criatividade surge da combinação
de trabalho disciplinado e momentos de inspiração, muitas vezes impulsionados
por contextos históricos, de desigualdade, experiências pessoais, situações
inusitadas, impactantes e até acidentes ou perdas.
As proporções entre inspiração e transpiração são
importantes, pois dão mostras do trabalho árduo a ser desenvolvido por um
artista, inventor, cientista ou escritor até que sua obra se concretize.
Muitas vezes, para o meio acadêmico, somente o
trabalho merece comentários, estudos e recortes, uma vez que a inspiração,
carente de uma explicação lógica, pode abrigar para alguns um caráter divino,
imaterial, impalpável, improvável, incerto — como se o “in” que inspira fosse
quase uma negação.
Com isso, as dissertações e teses sobre a criação de
grandes obras — ainda que, por vezes, contribuam para sua melhor compreensão —,
quando elaboradas com relações distantes, vagas e mirabolantes, soariam
estranhas aos próprios autores, que se surpreenderiam com o resultado da
análise de suas criações caso pudessem testemunhá-las.
É certo que todo aquele que cria deve estudar,
pesquisar, dominar e desenvolver técnicas e linguagens. Uma grande obra, por
mais natural e simples que pareça, é fruto de vivências, reflexões, maturação e
sintonia. O artista não pode ser refém da “inspiração fácil” e ocasional. O
suor faz parte da busca.
Por outro lado, se formação intelectual, inteligência,
conhecimento e domínio de linguagens e técnicas fossem suficientes para, por
exemplo, escrever um grande livro, todo bom professor de literatura e todo
crítico literário seriam grandes escritores — quando, na verdade, poucos são.
Escrever é algo que se ensina e se aprende. É
possível, portanto, que, mesmo sem maiores dons, uma pessoa escreva bons
textos, com boa desenvoltura e correção. Para quem cria, parece ser importante
"fazer, mesmo sem perfeição", para superar bloqueios.
Para ilustrar esse tema, entre autores e obras, foram
mencionados Bukowski, que escrevia diariamente em horários fixos, mesmo após
anos sem publicação, e João Cabral de Melo Neto, que também trabalhava
diariamente, mesmo sem inspiração imediata. “Nunca me aconteceu de eu ser
inspirado por algo", afirmou Edu Lobo no documentário “Uma Noite em 67”.
Todavia, para que uma grande obra literária seja
realizada, não basta escrever bem. É necessário mais que a fluência verbal,
mais que um bom jogo de imagens e sons: é necessário se jogar além.
Há quem diga que “o primeiro verso é dado pelos deuses”
... Não se sabe se o primeiro, o último, o título, o refrão ou alguma parte do
meio. Só sabemos que tudo que se cria tem um início e que este início pode ser
interpretado e entendido como um vislumbre, um intuir, um insight, um
despertar, um "clique" — algo, enfim, que acenda a pira e faça com
que o processo de criação se desencadeie e se consume. Heureca! A
primeira ideia é uma luz.
Nenhuma escolinha de futebol formará Pelés,
Garrinchas, Rivelinos, Zicos ou Romários. Academia de dança alguma dará “samba
no pé” a qualquer pessoa. Nos ateliês, aprende-se o equilíbrio das cores, mas
não o delírio. Conservatório algum dará ao mundo um cantor de blues.
Atualmente, a internet fragmentou os meios de
comunicação, reduzindo o impacto coletivo das obras, já que antes havia poucos
veículos (rádios, festivais) que chancelavam a arte.
Concluímos que os talentos, por mais burilados,
polidos e estimulados que sejam, são inatos... E, de 1 a 5%, o que distingue a
obra de um gênio é esta dose impalpável e incerta de inspiração.
(*) Para documentar o 36.º Encontro de
Escritores e Leitores, o texto acima foi composto, em sua maior parte, com o
conteúdo de artigo publicado pelo escritor César Magalhães Borges há
aproximadamente 20 anos, por ocasião de sua participação em um fórum da SBS
(Special Book Services) voltado para professores de inglês — o qual acabou
inspirando a escolha do tema tratado no encontro do dia 31/07/2026. Foram
incluídas apenas partes que traduzem algumas impressões de outros
participantes.
Dicas citadas durante o bate-papo:
- Documentário
"Uma Noite em 67" (sobre o festival de MPB da Record)
- Poema
"Húmus", de Raul Brandão
- Livro
e filme: O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
Comentários
Postar um comentário