Pular para o conteúdo principal

Fome e oração

Aconteceu com uma amiga. Mas a história é tão sensacional que vou contar como se tivesse sido comigo.
Eu estava na praia pegando um sol durante a semana. O frio já estava quase chegando e eu ainda não tinha conseguido fazer isso naquele ano. Matei o trabalho e peguei estrada rumo ao litoral. Chegando lá, molhei os pés, caminhei descalça pela areia, senti a brisa, contemplei o mar. Era tudo o que eu precisava. Os últimos tempos não estavam sendo nada fáceis. 
Senti fome. Tinha vontade de comer uma porção de peixe. Olhei o cardápio: R$55,00 a meia porção de tilápia, era o que tinha mais em conta. Dava para comprar uns três quilos, mas, eu não estava no mercado. Daí, resolvi pedir.
Demorou um pouco, mas, assim que chegou se aproximou de mim um garoto. Devia ter uns 10 ou 11 anos, no máximo. Disse que estava com fome. Se eu podia comprar algo para ele comer. Olhei pra meia porção e disse: “estou sozinha e posso dividir essa meia porção de peixe com você, apenas com uma condição”. 
Ele olhou ressabiado e fez com a cabeça como quem diz "qual?". 
“Tenho alguém doente na família e precisava rezar por ele. Você sabe rezar? Pode rezar comigo por essa pessoa? Um pai nosso e uma ave Maria antes e depois de comermos. Com fé", reforcei. 
Ele me fitou: “a senhora começa que eu acompanho”. Comecei a rezar e ele a repetir. Não parecia saber as orações de cor. Mas se esforçou para fazer a sua parte.
Descobri a porção e pedi que ele se servisse primeiro. "Coma com cuidado porque tem espinhos", avisei. Comemos em silêncio. Ao final da refeição, ele me encarou novamente pronto para cumprir a segunda parte da promessa. E assim foi. 
Quando terminamos, antes que ele se fosse, eu perguntei: "você não sabia rezar, não é”?
“Sou Testemunha de Jeová”, respondeu.
Meu estômago doeu. Eu perguntei: por que rezou, então? 
"Eu estava com fome", respondeu. "E também queria que o seu doente melhorasse". 
Disse isso e saiu correndo, me deixando sozinha com as minhas lágrimas. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O bom samaritano

“Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo e o espancaram. Depois foram embora e o deixaram quase morto. Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu e passou adiante pelo outro lado. Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e teve compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele” . Lucas 10,30-34. Um gay ia caminhando pela avenida Paulista, quando foi abordado e espancado por uma gang de SkinHeads. Depois que ele estava desacordado de tanto apanhar, foram embora e o deixaram ali, quase morrendo. Um pastor que passava pela mesma calçada, viu e o ignorou, seguindo adiante, a caminho do culto. Um político também passou e desviou do caminho. Afinal, nem era época de el...

Comédia: gênero menor ou maior?

  O gênero comédia, embora explorado por grandes nomes da literatura, do cinema, do teatro entre outras artes, raramente rendeu algum prêmio de destaque, tanto por autoria, atuação ou por um misto de atividades envolvidas com a sua criação. E isso só aconteceu quando a produção mesclou um pouco de drama à história, nos levando a crer que a pura comédia não esteja sendo considerada digna do topo, que esteja sendo entendida como inferior ao drama, à tragédia, ainda que, comprovadamente, de qualidade e sucesso. Exemplos não faltam. Entendida prioritariamente como um instrumento de lazer — as gargalhadas nos relaxam e nos afastam dos problemas do dia a dia — a comédia, quando bem elaborada e interpretada, pode nos levar a refletir sobre os problemas da sociedade, mas de forma leve e descontraída, tornando-se um importante canal de comunicação. Não é à toa que as crônicas de Fernando Sabino, de Lu í s Fernando Veríssimo e muitos outros tenham ido parar nas escolas, como fonte de estudo ...

Ficção e realidade: suas influências e benefícios para o mundo real

Você tem o hábito de ler ficção? Tem noção dos benefícios que esse ato pode te trazer? Foi a partir do compartilhamento de experiências das autoras Talita Salvador (“Entre dois Mundos”) e Rosana Dias Vitachi (Trilogia “O Espelho do Monge”), com pitadas de análise profissional da psicóloga Carla Alberici, que pudemos conhecer um pouco sobre o processo de criação de histórias de ficção e de sua influência no psicológico das pessoas.   A participação da plateia também contribuiu para a realização de uma conversa franca e agradável. Eu tive o prazer de mediar essa conversa que aconteceu no último sábado, dia 06/07/2019, no Espaço Novo Mundo, da Livraria Nobel, em Guarulhos. Veja um resumo das principais perguntas e respostas: Mediadora : Primeiramente, peço que as escritoras comentem o que as inspirou a escrever e que façam uma sinopse de seu livro. Talita : Tudo começou com um sonho que tive. O prólogo do meu livro é a descrição desse sonho. Quando aconteceu...