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Adaptações: quando a letra se traduz em imagem

       O que acontece quando a literatura é levada para o cinema? Normalmente o roteirista se propõe a fazer uma tradução da obra e não uma simples cópia dela. Mesmo porque são linguagens diferentes, com recursos próprios de cada delas. É basicamente transformar em imagem a palavra escrita, mas nada simples.      É comum que leitores de um livro se decepcionem com a sua versão no cinema. Isso acontece porque o leitor em sua atividade solitária e silenciosa constrói em sua mente imagens de acordo com a sua percepção da história escrita. Ao assistir à adaptação do livro em filme nem sempre a imagem que verá na tela corresponderá fielmente àquela que ele criou. Além de serem diferentes, pode acontecer que sejam criadas cenas que não estão transcritas no livro, que sejam aumentados trechos que no papel eram apenas uma pequena menção e transformados em uma longa sequência de pura ação e emoção. O contrário também acontece, ou seja, várias páginas do livro s...

Parasita

     Assisti ao filme “Parasita” ontem, pela Tela Quente da Rede Globo. Mesmo tendo sido o filme de língua estrangeira premiado pelo Oscar no ano passado e, além disso, ter sido vitorioso em mais de 300 premiações do gênero, ainda não tinha tido a oportunidade de conferi-lo.      Embora com um pouco de atraso, afinal nem tão grave por eu não ser uma especialista da área, senti necessidade de escrever algo sobre ele. Pelo que li em uma breve pesquisa pela internet, muitos foram os que se manifestaram a respeito. Acho que o filme é isso, uma história muito criativa e cheia de mensagens, ao ponto de fazer com que o expectador tenha necessidade de refletir e falar sobre ele.      É claro que nem todos gostaram, nem todos falaram bem. Li muitas críticas favoráveis, enaltecendo o diretor, atores, o filme todo em si, bem como li ataques ferozes ao mesmo diretor, aos mesmos atores, à história e até aos jurados do Oscar. Foram muitos que odiaram o...

País sem salvação?

            “Vocês não têm salvação. É muita cachaça e nada de oração”. A frase, dita em tom de brincadeira pelo Papa Francisco a um padre brasileiro que lhe pediu oração, repercutiu nas redes, recebendo muitas críticas e também certo volume de apoio.             Antes de ser papa, Francisco é um ser humano, passível de erros. Sua origem argentina também o credencia para zoar do povo brasileiro, prática comum a ambos os lados de países que rivalizam em vários aspectos, sendo o futebol um dos principais. Era pra ser uma frase engraçada, uma piada, de mau gosto talvez, mas uma piada. A questão é que quando sai da boca do chefe supremo da Igreja Católica, diante das atentas lentes do mundo todo, ganha uma proporção de grandeza exponencial. Afinal, Jesus Cristo, pedra fundamental da religião, sempre pregou que a salvação está ao alcance de todos, desde que se arrependam verdadeiramente de seus pecados. In...

"Cortes, acréscimos... a importância da edição"

     Muitas vezes é difícil para um autor cortar ou modificar trechos de sua obra, seja ela em prosa ou poesia. Sabemos que essa providência quase sempre é necessária, mas raramente encontram-se editores capacitados ou propensos a fazer esse papel, como o que no filme “O mestre dos Gênios”, o personagem da década de 20, Max Perkins, executa brilhantemente. Infelizmente, na maioria das vezes, sugestões são dadas apenas com interesses mercadológicos e não exatamente para melhorar a criação. Desta forma, o próprio autor precisa aprender a editar sua escrita. Precisa saber cortar, saber corrigir, saber ordenar, saber acrescentar e além de tudo saber quando parar.      Algumas modalidades artísticas tratam a edição com mais naturalidade. O cinema parte da gravação de um extenso número de cenas para chegar a um produto final de exibição de alguns minutos, ou de no máximo uma a duas horas. Na pintura, há vários artistas que recriam telas ou ocultam imagens que n...

Dia de lutar contra a mentira

       Para ¨comemorar” o dia de hoje, convencionado como o “Dia da Mentira”, sugiro assistir ao filme “The invention of Lying” ou título em português, O primeiro mentiroso. É uma comédia protagonizada por Richy Gervais que nos apresenta um mundo nos moldes do atual, com, porém, uma grande diferença: nele ninguém aprendeu a mentir. Ao descobri-la e passar a usá-la, ele conquista fama e fortuna, além de se aproximar da mulher dos seus sonhos.      Tenho de admitir que, na minha opinião, não se trata de um grande filme, é até meio bobo, mas talvez por isso mesmo encaixe-se no rol das comédias românticas, que costumeiramente nos trazem momentos de relaxamento e diversão descontraída.      Sugestão feita, gostaria de lembrar que em nosso mundo real a mentira existe e vem sendo usada a todo vapor, de todas as formas possíveis e inimagináveis, a serviço de causas sérias demais para serem comparadas a um filme. Infelizmente, uma parte das p...

A presença, a ausência e a ocultação do autor em sua obra

       Mesmo quando o autor escreve em primeira pessoa não está, necessariamente, escrevendo sobre si. Da mesma forma, quando usa a terceira pessoa, pode estar descrevendo suas experiências de vida projetadas em um terceiro. O mesmo acontece na poesia, com o “eu lírico”.      Há autores que se fazem constantemente presentes em suas obras de tal forma que se fazem reconhecidos ainda que não sejam personagens da história. É possível reconhecer Woody Allen em seus filmes, inclusive naqueles em que ele não atua, apenas dirige. Há quadros em que os pintores se retratam ou se colocam dentro da sua criação. Por exemplo, no quadro “As meninas”, de Velasquez, o pintor se inclui em um canto da cena, pintando seu próprio quadro.      Já outros não se identificam com tanta facilidade, porém, as próprias escolhas do que escrever e de como escrever trazem a sua marca. Não se encontra Jorge Amado em suas obras, mas se reconhece o escritor na forma ...

Carnaval - é ou não é?

          Hoje é carnaval. Mas também não é. Uma contradição causada por um vírus cruel, que vem nos atormentado há mais de um ano e que nos condenou à ausência de muitas coisas, dentre elas a comemoração dessa festa maravilhosa.      Sim, para mim o Carnaval sempre foi uma festa grandiosa e imperdível.   Quando criança, minha mãe me levava às matinês de salão e também para acompanhar os singelos desfiles de Rua de Campinas (sem querer ofender minha cidade, mas em comparação aos do Rio de Janeiro, por exemplo). A partir de meus dezessete anos, comecei a frequentar os bailes noturnos, que aconteciam em diversos clubes como Bonfim, Cultura, Regatas, Guarani. Embora eu tenha sido sempre torcedora da Ponte Preta, me via por vezes cantalorando o hino do clube rival, cantado à exaustão nos intervalos de cada baile que acontecia no ginásio localizado na Avenida Princesa D’Oeste. Nos primeiros anos da faculdade, eu cheguei a recusar convite pa...