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O direito humano de entrar no céu

Recém-chegado às portas do céu, o homem é orientado a se dirigir à fila de triagem. À sua frente há apenas uma pessoa. Para tentar entender como funciona, ele puxa conversa: __Ei, amigo, sabe se demora o atendimento aí? __Ah não, senhor, não demora nada. Já percebi que aqui tudo funciona muito bem. As pessoas são tratadas com muito respeito, independentemente de como tenham se comportado lá na terra. Assim que nos chamam, nós entramos lá e o encarregado vai consultar a nossa ficha. Se estiver tudo certo, entramos direto. Se voltarmos pra cá é porque não fomos aprovados de primeira. Então, teremos que nos dirigir àquela outra porta ali, bem à direita. Aquela é a sala de provas. __Ah, tá. À da direita, né? Ainda bem. Se fosse à esquerda, aí ia complicar. Detesto a esquerda! __O senhor tem um porte de soldado. Foi militar? __Ah, eu, sim, fui capitão. Tive uma carreira brilhante lá no exército. Todo mundo me adorava. Sai porque recebi um chamado pra carreira política. Sabe...

Que dor é essa?

“Que povo é esse, que ao som do atabaque e da batida do tambor, canta e dança seu lamento e sua dor?” Logo de início esse mantra que abriu a missa de hoje pela manhã na comunidade católica que frequento já me emocionou.   Ele foi declamado por uma jovem no momento em que a procissão de entrada invocava o dia da consciência negra, oficialmente comemorado no próximo dia 20. De tão envolvida com a cena, acabei omitindo do vídeo a primeira parte, embora o que esteja postando aqui também esteja carregado de extrema beleza. Ao ouvir o mantra e contemplar aquelas pessoas exteriormente ornamentadas com motivos afros e internamente carregando o legado da raça negra, com um misto de orgulho e sofrimento passados de geração em geração, não pude deixar de pensar no livro que acabei de ler. ”Kindred, laços de sangue”, de Octavia E. Butler (*). Enredo que nos dilacera a alma, não é apenas simples ficção, imaginada, inventada, é retrato da história acontecida no mundo todo em variadas épocas....

Mulheres em conexão com passado, presente e futuro

Mulheres em conexão com o passado, presente e futuro, esse foi o tema do segundo encontro do Clube do Livro do Sesc Guarulhos. De acordo com Pétala Souza e Isabela Souza, as mediadoras do evento, a menção de passado, presente e futuro é uma das características da maioria das obras das autoras negras. Isso aconteceria porque esses tempos estão interligados e os acontecimentos de um influenciam diretamente nos outros, apesar de nem sempre nos darmos conta disso. Para se construir um futuro se faz necessário acompanhar o presente e conhecer o passado. As duas obras escolhidas para análise exemplificam bem essa característica. Dana, a protagonista de Kindred Laços de Sangue, de Octavia E. Butler, se vê transportada para o passado e estabelece contato com a escravidão, cuja história conhecia dos livros, mas que passa a vivenciar durante sua experiência de viagem no tempo.  Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio ...

Escrita – a influência nossa de cada dia

Com a ideia de que influência não é cópia e que não há escritor sem leitura, começa a conversa no nosso III Encontro de Escritores e Leitores, acontecido ontem no espaço do Kas Tattoo, em Guarulhos. Como o tema desta vez era “Criação, Estilo e influência do autor”, o mediador, o poeta César Magalhães Borges, começa lembrando que não podemos negar que somos influenciados pelo meio em que vivemos, pela língua que falamos, pelos padrões culturais a que estamos submetidos. “Ninguém faria uma poesia, um conto, um romance, se não aprendesse dentro desse caldeirão da cultura”, afirma. O poeta lembra que é o nosso contato com as outras artes, com a obra do outro, que nos faz começar a escrever. “Sequer falaríamos se não estivéssemos em um grupo que fala”.   Além disso, mesmo aquele cantador ou poeta que por algum motivo não aprendeu a ler e escrever criou sua arte de ouvir outros cantadores. César Borges ainda comenta uma frase tão infeliz quanto absurda que ouviu de um preten...

Voz: arma e escudo

Hoje, no primeiro dia oficial do Clube do Livro organizado pelo Sesc Guarulhos, o tema foi “A literatura como caminho para o encontro com vozes de mulheres negras”. Os exemplos de vozes negras escolhidas vieram dos livros “O ódio que você semeia”, da escritora norte-americana Angie Thomas e Querem nos Calar, uma antologia compilada por Mel Duarte. O ódio que você semeia é uma história juvenil que trata de um tema que não tem idade: o racismo dos tempos de hoje. A jovem Starr desde cedo foi treinada pelos pais sobre como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial: não fazer movimentos bruscos, deixar sempre as mãos à mostra, só falar quando lhe perguntarem algo. Quando ela e seu amigo Khalil são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e tiros disparados. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue e sem vida. Indignada com a injustiça tão exp...

Quem quer ser santo?

Um conhecido programa de TV pergunta “Quem quer ser um milionário?”. O assunto já virou até filme. É claro que a resposta “sim” predomina. Por ocasião da proximidade da proclamação de Irmã Dulce como santa (37ª Santa brasileira), neste domingo (13), me ocorreu de forma analógica perguntar: Quem quer ser santo? Aposto que grande parte responderá que não. Existe grande preconceito em relação a ser santo. Lembro-me de uma vez ter chamado a atenção de um garoto por causa de uma travessura. Disse que deveria se comportar, essas coisas que se fala às crianças nesses momentos, no que ele prontamente me respondeu: “Tia, você não vai querer que eu seja santo, né?”. As pessoas, mesmo as que seguem uma religião, não costumam pensar na santidade como algo a ser almejado. Por alguma razão atribuem esse fenômeno a seres predestinados, que já teriam nascido santos. Outros se referem à santidade como sinônimo de “ser bobo”, “ser ingênuo”. Acontece que alguns santos não foram tão perfeitos...

SESC Guarulhos lança Clube de Leitura

Guarulhos é uma cidade repleta de autores e de amantes de literatura. Só que pouca gente sabe disso. Essa é uma constatação que eu já havia tido em outras oportunidades e acabei comprovando hoje, quando participei do primeiro encontro de um Clube de Leitura que está sendo criado pelo Sesc Guarulhos. A novidade foi idealizada por Pedro Alberto Ribeiro que é técnico em literatura do Sesc e estruturado pelas irmãs Pétala e Isabella Souza, participantes ativas e incentivadoras desses clubes através do blog Parênteses. De acordo com as blogueiras, são diversos tipos de clubes de leitura espalhados pelo Brasil, que também são chamados de diversas formas: clube do livro, clube de leitura, clube de leitores, reunião leitores etc. Alguns funcionam em locais específicos, outros são virtuais através de redes sociais. A forma de funcionamento de cada um deles também é variada. Há os que escolhem livros para serem lidos e comentados. Outros estabelecem um tema e cada componente lê e co...